TABAGISMO E ANTECIPAÇÃO DA IDADE DA MENOPAUSA

Estima-se que no mundo há cerca de 1,2 bilhão de fumantes na população acima de 15 anos. Os efeitos do fumo sobre a saúde humana ocorrem não só nos tabagistas ativos, mas também nos indivíduos expostos à fumaça, sendo esses denominados fumantes passivos ou ambientais .
As pesquisas, tanto em homens como em mulheres, comprovam a relação entre tabagismo e inúmeros agravos como doenças cardiovasculares, respiratórias e cânceres (pulmão, bexiga, laringe, esôfago, faringe, rins e pâncreas). Anualmente nos Estados Unidos, cerca de 3 milhões de óbitos são atribuídos ao fumo; no Brasil, a mortalidade decorrente do fumo alcança anualmente 200 mil casos.
Na população feminina, o tabagismo apresenta algumas particularidades, como maior dependência e suscetibilidade aos apelos da publicidade. Estima-se que no século XXI as mulheres fumantes superarão os homens, fato que já está sendo constatado na Alemanha, Grécia, Inglaterra, França, Dinamarca, Itália, Brasil, México e Bolívia.
Inúmeras são as repercussões do tabagismo sobre o organismo feminino. Durante o ciclo grávido-puerperal, propicia maior risco de baixo peso ao nascer, os abortos espontâneos e de mortalidade neonatal. Fumar nos intervalos da lactação transfere ao recém-nascido o equivalente a um cigarro por dia, enquanto que fumar durante as mamadas transfere três cigarros por dia.
A menopausa - última menstruação da vida - resulta da perda da atividade hormonal dos ovários e, em geral, acompanha-se de sintomas como ondas de calor, depressão e perda da memória; pode, também, relacionar-se com o desencadeamento de doenças cardiovasculares, osteoporose e de Alzheimer.
Muitos fatores têm sido atribuídos à antecipação da idade da menopausa destacando-se o estado socio-econômico, a etnia, o uso de contraceptivos orais, a idade da menarca e os antecedentes familiares; outros fatores, como a histerectomia prévia, o estado nutricional, as grandes altitudes e o tabagismo também exercem importante papel nesse processo.
Estudos de caso-controle relacionando tabagismo e antecipação da idade da menopausa é antecipada de 12 a 18 meses.
A antecipação da menopausa em fumantes tem sido explicada pela deficiência estrogênica causada diretamente pelo fumo, podendo não só antecipar o aparecimento de sintomas da menopausa, mas também das doenças estrógeno-relacionadas, como a osteoporose e as cardiovasculares.
No que tange à osteoporose, o fumo pode atuar também diretamente na matriz óssea, reduzindo a atividade osteoblástica; quanto às doenças cardio-vasculares, o tabagismo exerce expressivas ações sobre as lipoproteinas, sistema de coagulação e, principalmente, sobre as paredes dos vasos, facilitando o desencadeamento de doenças como a coronariopatia isquêmica e a cerebrovascular.
Poucos são os estudos que avaliaram a antecipação da menopausa pelo hábito de fumar; no Brasil, não há referências de qualquer investigação pertinente ao tema. Por isso, interessou-nos avaliar a hipótese de que mulheres fumantes podem apresentar antecipação da menopausa

MÉTODOS

No período de janeiro de 1998 a janeiro de 2001, por meio de um questionário, foram avaliadas 1.400 mulheres no intervalo etário dos 40 aos 65 anos, que tinham apresentado menopausa natural após os 40 anos e que previamente nunca tinham usado terapia hormonal.
O estudo foi realizado no Ambulatório de Saúde da Mulher no Climatério (ASMUC), anexo ao Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de S. Paulo (FSP-USP).
Todas as mulheres estudadas residiam no município de S. Paulo e tinham procurado espontaneamente o ambulatório por apresentar alguma queixa relacionada ao climatério. Das 1.400 mulheres que responderam ao questionário selecionamos 775 que estavam na fase após a menopausa e dentro dos critérios de inclusão e exclusão para o estudo.
Critérios de inclusão : mulheres após a menopausa, com idade entre 40 e 65 anos.
Critérios de exclusão : menopausa precoce (abaixo de 40 anos), histerectomia ou ooforectomia prévias, tabagistas recentes, ou seja, mulheres que iniciaram o hábito de fumar nos últimos cinco anos (perimenopausa) ou após a menopausa e tabagistas passivas, ou seja, mulheres não fumantes, porém que vivem com membros da família ou do trabalho que são tabagistas ativos.
O questionário foi aplicado por médicos ginecologistas e respondido pelas mulheres na primeira consulta.
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado por todas as mulheres e o protocolo do estudo foi aprovado pela comissão científica do CEPCLIMA (Centro de Estudo e Pesquisa da Mulher no Climatério).
O questionário aplicado continha informações gerais e específicas de interesse para o estudo, destacando particularmente a idade em que ocorreu a menopausa, a duração do tabagismo e o número de cigarros fumados diariamente, antes da instalação da menopausa.
Definiu-se como menopausa natural a ausência de menstruação por um período de 12 meses; esta deveria ter ocorrido obrigatoriamente após os 40 anos de idade, sem que outros fatores pudessem Ter interferido na sua manifestação, como histerectomia, quimioterapia ou radioterapia para tratamento de doenças preexistentes. Todas as mulheres incluídas no estudo apresentavam concentrações séricas de FSH (hormônio folículo estimulante) maior que 30 UI/mL (unidades internacionais por mililitro) e de estradiol menos que 13 picogramas/mL, que sinalizavam estado menopausal.
Considerou-se tabagistas ativas as mulheres que têm ou tinham o hábito de fumar, antes ou até a instalação da menopausa e que fumaram por mais de um ano, mesmo que tenham parado posteriormente.
A antecipação da idade da menopausa foi definida como a última menstruação, ocorrida antes da média etária esperada para uma determinada população. No presente estudo, realizado em S. Paulo, consideramos antecipação da menopausa todos os casos cuja última menstruação tivesse ocorrido antes dos 48 anos de idade.

MÉTODO ESTATÍSTICO

A análise descritiva das variáveis quantitativas foram apresentadas como média e desvios padrão.
Para avaliar a existência de uma possível associação entre duas variáveis quantitativas utilizaram-se os testes Qui-quadrado ou exato de Fisher.
Todos os testes estatísticos utilizados foram realizados pelo software SPSS (versão 8),
Em todos os testes fixou-se em 5% o nível de rejeição da hipótese de nulidade.

RESULTADOS

A frequência do tabagismo entre as 1400 mulheres que responderam ao questionário foi de 25% e a média de ocorrência da menopausa foi de 48/49 anos de idade.
Das 775 mulheres incluídas no estudo, 646 (83%) não eram tabagistas e 129 (17% eram tabagistas.
Dessas 775 mulheres selecionadas, verificou-se que a menopausa ocorreu antes dos 48 anos em 646 (34,9%) mulheres não tabagistas e em 129 (42,6%) das tabagistas.
A menopausa no grupo não tabagista ocorreu em média aos 48,6 anos e no grupo tabagista aos 47,8.
Em relação ao número de cigarros fumados por dia, observou-se que a menopausa ocorreu aos 49,2 anos nas 34 mulheres fumantes de até 5 cigarros/dia; aos 47,6 nas 42 que fumavam de 6/10 cigarros/dia e aos 46,9 nas 53 que fumavam mais de 10 cigarros/dia.

DISCUSSÃO

Na análise de todas as mulheres, independentemente de serem fumantes ou não, nosso estudo revelou que a média etária de instalação da menopausa foi de 48/49 anos, resultado que se assemelhou ao obtido em outro estudo realizado na cidade de S. Paulo, apesar de que neste último não se analisou a população tabagista.
Nossos resultados diferem dos obtidos da população dos EUA; assim, a média etária das mulheres americanas foi de 51 anos. Este achado deve servir de alerta, pois comumente são utilizados esses dados para se fazer comparações com as brasileiras e isso poderia implicar em interpretações errôneas. Por isso, não é prudente utilizar em estudos realizados em S. Paulo e relacionados ao climatério, "padrões" estabelecidos por pesquisas americanas.
A principal consequência da antecipação da menopausa nas mulheres tabagistas é o hipoestrogenismo de instalação mais precoce; tal fato pode precipitar a eclosão de doenças estrógeno-relacionadas muito mais precocemente, causando expressivos custos para o sistema de saúde, bem como muitas mulheres necessitarão de maior tempo de tratamento hormonal dos sintomas climatéricos, face à antecipação da menopausa.

(Fonte de consulta: Boletim Unimail da Fundação Unimed)

(Do nosso correspondente enio@unimedaracati.com.br )
DICAS

Unimed Aracati - Travessa João Adolfo, 940 Centro CEP 62800-000 - Aracati-CE - Fone:(88)3421-1610 Fax:(88) 3421-2424
Todos os direitos reservados a Unimed Aracati- 2006