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Medicina
Árabe: ciência, religião, filosofia
e arte
O hospital árabe era local de enorme efervescência
cultural e científica, servindo a propósitos variados
além da atividade médica. |
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A expansão
do mundo árabe iniciou-se a partir da unificação
dos diversos povos que habitavam a península arábica.
Inicialmente, os semitas árabes uniram-se aos sumérios,
originando a poderosa civilização babilônica.
A unificação política e religiosa foi possível
a partir das revelações de Maomé, que deram
origem ao islamismo: religião monoteísta fundada sobre
os ensinamentos do Corão – livro sagrado do Islã.
Os primeiros 250 anos após a Hégira – fuga de
Maomé para Medina – assistiram a um extraordinário
desenvolvimento da cultura árabe.
O contato entre a cultura árabe e a grega, com suas teorias
médicas, iniciou-se antes do nascimento de Cristo. No século
IV a.C. já havia iniciado o contato entre estas duas culturas,
com a migração de um grande número de médicos
gregos para a Pérsia, a partir das conquistas de Alexandre
Magno. Em 76 d.C., a destruição de Jerusalém
pelos romanos levou os judeus a fugirem em direção
à capital persa, Gundishapur, onde se estabeleceram, com
uma grande quantidade de textos da época. Com o domínio
da Igreja Católica sobre o Império Romano, a Academia
de Atenas é fechada pelo Imperador Justino, em 529 d.C.,
levando a maioria dos filósofos gregos a procurarem abrigo
na capital da Pérsia.
A perseguição a Nestório, patriarca de Constantinopla
e seus seguidores, com a acusação de heresia, em 431
d.C., levou-os a fugir para o Oriente Próximo, onde construíram
um hospital, em Edessa, e posteriormente outro em Gundishapur, em
489 d.C., que tornou-se berço da medicina árabe. |
| MÉDICOS |
Os
médicos árabes começaram a adquirir relevo
apenas com o aumento da importância de cidades como Alexandria
e Gundishapur. No início, os médicos praticantes eram
cristãos ou judeus. As mulheres possuíam um papel
extremamente importante dentro da medicina árabe, assim como
entre os gregos e os romanos. A prática da obstetrícia
e da ginecologia era reservada a elas, com a intervenção
do médico apenas nos casos mais complicados.
Os médicos árabes mais famosos foram al-Rhazes
e Avicena, do califado oriental e Avenzoar,
Averróis e Maimônides,
membros da Escola de Córdoba (Espanha), a capital do califado
ocidental.
Abu Bakr Muhammad ibn Zacaria, conhecido como al-Rhazi (860-932),
era persa e estudou medicina em Bagdá. Produziu inúmeras
obras sobre matemática, astronomia, religião e filosofia.
Porém, mais da metade de suas 237 obras versavam sobre medicina.
Abu Ali al-Husain ibn Sina, conhecido como Avicena (980-1037), nascido
em Bukhara, era um garoto prodígio. Memorizou todo o Corão
e diversas poesias árabes aos 10 anos. Aos 16 afirmava conhecer
toda a matéria médica. A obra-prima de Avicena foi
uma compilação dos ensinamentos médicos de
Hipócrates e Galeno e biológicos de Aristóteles,
denominada Cânone (al-Quanum). Sua obra,
apesar de muito criticada, serviu como o primeiro tratado médico
utilizado pelas universidades européias.
No século X, a cidade espanhola de Córdoba tornou-se
o centro cultural da Europa. A população de mais de
um milhão de habitantes dispunha de cerca de 52 hospitais.
Abu Mervan ibn Zuhr, conhecido como Avenzoar (1113-1162) nasceu
em Sevilha, sendo descendente de uma abastada família de
médicos, destacando-se por seu espírito crítico
e dedicação às experimentações.
Abu Walid ibn Rushid – Averróis (1126-1198) era cordobês
e aluno de Avenzoar. Era mais conhecido como filósofo aristotélico
que como médico. Estudou jurisprudência, filosofia
e medicina, tornando-se magistrado em Córdoba e Sevilha.
Seu texto médico mais famoso é o Colliget ou Coleção
(Kitah al-Kullyat), que trata de comentários sobre o Cânone
de Avicena.
Abu Imram Ibn Maimun, Maimônides (1135-1204) também
era cordobês e aluno de Averróis. Ficou também
mais famoso como filósofo e talmudista que como médico.
Sua obra médica mais conhecida foi Aforismos (Fusul Musa),
uma coleção de 1.500 aforismos baseados em obras de
Galeno e suas observações pessoais. |
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| ENFERMIDADES |
Os
muçulmanos acreditam que Alá possui o poder para ocasionar
a doença, assim, a oração era vista como uma
forma milagrosa de promover a cura. A atuação do médico
e da ciência no processo de cura era visto como uma forma
de manifestação da vontade divina. Acreditavam na
existência de uma vida após a morte, onde o fogo vital,
que mantém o corpo vivo, se reavivava e recebia as sanções
do paraíso. Desta forma, foi instituída a proibição
da dissecção de cadáveres. Devido a isto, os
médicos passaram a realizar o procedimento em porcos e cães,
e, com a ajuda dos textos de Aristóteles, Hipócrates
e Galeno, estabeleceram comparações que levaram a
teorias originais sobre a constituição dos órgãos
internos.
Os médicos árabes utilizavam fundamentalmente os critérios
greco-romanos para o diagnóstico das doenças. Baseavam-se
em seis critérios: comportamento do paciente; observação
das fezes; observação das secreções
corporais; existência de tumorações; caráter
e localização da dor. No entanto, também utilizavam-se
de métodos desconhecidos dos gregos, como o estudo cuidadoso
do pulso, provavelmente aprendido com os médicos chineses.
Também lançavam mão da Astronomia, que, como
ciência natural, tinha grande importância.
O estudo da urina tinha importância capital, chegando a determinar
qual a enfermidade, o prognóstico e até a pauta de
tratamento. O movimento do sangue foi um capítulo importante
entre os médicos árabes. |
| SAÚDE
PÚBLICA E HOSPITAIS |
O
hospital árabe era um local de enorme efervescência
cultural e científica, servindo a propósitos variados,
além da atividade médica. Possuíam fontes,
salões de leitura, bibliotecas, capelas e dispensários.
As escolas médicas introduziram um grande número de
drogas (químicas e herbáceas). Entre os medicamentos
introduzidos pelos árabes destacam-se o âmbar, almíscar,
cravo-da-índia, pimenta, gengibre, noz-moscada, cânfora,
sena, cassis e a noz-vômica. Desenvolveram métodos
de extração, técnicas de destilação
e cristalização, que possibilitaram o estudo e desenvolvimento
de medicamentos até então desconhecidos, além
de serem essenciais à formação da farmácia
e da química.
Casas e ruas eram limpas e as cidades possuíam saneamento.
O ensino médico e a organização sanitária
levou a um progresso rápido e acentuado. As primeiras leis
higiênicas importantes são atribuídas à
Maomé.
Há registro de mais de 34 hospitais em todo território
islâmico. O primeiro de Bagdá foi fundado pelo califa
Harum al-Raschid, no século IX. Mas o hospital de Bagdá,
fundado pelo califa Al-Mutkadir, foi o maior do século X.
Al-Razi praticou e ensinou nele. Foi onde implantou o princípio
de se recolher e guardar as histórias clínicas para
serem utilizadas em discussões de casos, no aprendizado.
O hospital de Damasco foi o mais suntuoso. Servia também
de escola médica, com uma das maiores bibliotecas da época.
O hospital Mansur, no Cairo, foi construído em 1823. Os convalescentes
eram internados em pavilhões, organizados em orfanato, biblioteca
e enfermarias especiais, que atendiam feridas, afecções
oculares, diarréias, transtornos da mulher e febres. Cada
paciente recebia uma ajuda de cinco moedas de ouro para cuidar da
família até sua volta ao trabalho.
Os médicos de renome atendiam apenas aos ricos e nobres.
Uma prova disto é a importância extrema que foi dada
ao fato de al-Razi atender aos pobres de graça. |
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ENSINO MÉDICO |
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Os
califas se tornaram defensores ardorosos das escolas e da ciência.
Nas escolas médicas, as principais matérias eram filosofia,
teologia e matéria médica. Também eram estudadas
matemática, química e física, que se tornaram
a principal paixão médica, fazendo com que a medicina
voltasse a ser hipocrática, ou seja, baseada na experiência
e na lógica.
Em todo o território dominado pelo Islã, o hospital
era dirigido por um médico, que comandava outros médicos
e dava aulas para estudantes. Estes, somente eram considerados médicos
após um exame minucioso, que poderia ser realizado após
anos de estudos regulares. Para assegurar que a medicina não
seria exercida por charlatães, foi criado um departamento
de fiscalização das profissões, o Hisba. O
Muhtasib, chefe desse departamento, fiscalizava os médicos,
cirurgiões e dentistas, verificando se tinham conhecimento
suficiente.
O conhecimento árabe, ensinado nas escolas médicas,
foi uma junção dos conhecimentos persa, caldeu, hindu,
chinês e grego antigo. Este último, baseado em Hipócrates,
Galeno, Dioscórides, Oribasio, Alexandre de Tales, Paulo
de Égina e, principalmente, Aristóteles.
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FONTE
DE CONSULTA: SANTOS, Vivianne – Revista Hebron Atualidades –
nº 21 – jan/fev 2006.
Referências bibliográficas: - SOURNIA, Jean-Charles.
História da Medicina. (Lisboa): Instituto Piaget.
- Enciclopédia Familiar da Saúde – Guia Completo
das Medicinas Alternativas. Edilibro, S.L., Navarra. Clube Internacional
do Livro, Brasil. Condensado por Beatriz Marcos Teles, terapeuta holística.
- OSAWA, George. A Filosofia da Medicina Oriental – Associação
Macrobiótica de Pôrto Alegre – 1969. |
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