BEM-ESTAR EMOCIONAL VERSUS SAÚDE

DOENÇAS PODEM ESTAR RELACIONADAS COM O EMOCIONAL

No fim dos anos 80, surgiu um movimento mundial que ficou conhecido como slow food. A idéia, claro, era combater o fast food, aquelas comidas de preparo rápido e que, em geral, têm menor qualidade nutricional.Aos poucos, o movimento cresceu e, hoje, a proposta é não apenas comer bem e devagar, como também desacelerar em tudo. Trabalhar um pouco mais devagar pode ser mais produtivo e resulta em mais qualidade. Gastar um pouco mais de tempo na conversa com os amigos ou com a família significa ter mais prazer. Fazer algo que você gosta, no seu ritmo, sem pressa e sem competição, pode ajudar s melhorar o seu bem-estar.
         O que esse movimento mostra, e os médicos já sabem há muito tempo, é que quando fazemos tudo muito depressa, por obrigação, sem prazer, nos tornamos estressados, e podemos ficar mais sucessíveis às doenças. Isso acontece porque a correria e a preocupação com a falta de tempo fazem com que as relações com a vida e com os outros sejam menos prazerosas e profundas. Desse modo, perdemos a consciência daquilo que nos cerca e do que realmente sentimos. Nesse momento, se não tomarmos cuidado, podemos desenvolver uma doença orgânica decorrente dos sentimentos que nos fazem sofrer, processo conhecido como somatização.
         Por isso, muitas vezes, é difícil curar um problema, se a verdadeira causa – a fragilidade emocional – não é combatida. Pensando nos clientes que têm esse problema, o Centro de Referência em Medicina Preventiva – CRMP (Unimed Paulistana), realizou, há alguns meses, um projeto-piloto para dar suporte de tratamento emocional para que pessoas que claramente estavam somatizando problemas. Foram identificados pacientes jovens, com menos de 40 anos, que não estavam conseguindo a cura de seus males, mesmo consultando diversos médicos especialistas e repetindo o tratamento várias vezes. Não raro, a doença física crônica vinha acompanhada de problemas emocionais, como depressão, ansiedade e estresse.

Bem-estar Emocional
“Quando há um desequilíbrio emocional, uma carência, uma ferida que não foi cicatrizada, geralmente, trazemos para o organismo esse desequilíbrio. Mente, corpo e alma estão integrados e essa é a forma de dizermos a nós mesmos, que algo não vai bem. Se continuamos a não perceber isso, a doença pode se instalar”, resume o Dr. Mauro Sbano, médico do Departamento de Medicina Preventiva do CRMP. Ele, pessoalmente, entrevistou cada um dos 22 clientes que participaram do grupo-piloto para propor a eles a nova modalidade de tratamento que consistia, além de seguir todas as orientações do especialista que os acompanhava, incluir na rotina alguns cuidados com o bem-estar emocional.
“Foram quatro meses de sessões de psicoterapia em grupo, além de algumas sessões de arte-terapia, de terapia familiar e atendimento psiquiátrico, para aqueles com problemas mais sérios”, conta o Dr. Mauro. Na terapia, os clientes eram estimulados a olhar um pouco mais para si mesmos, para sua história de vida, seus relacionamentos com a família e os amigos, as dores emocionais do passado que não foram bem resolvidas e o comportamento presente. O resultado, para a maioria deles, foi surpreendente.
“Eu percebi que vivia com o pé no acelerador, me irritava com as pessoas e estourava facilmente com todo mundo, até com minha mulher, o que já estava atrapalhando o clima em casa. Vivendo assim, piorava muito um problema que tenho desde a infância, que é a insônia”, conta I. T., um dos participantes do grupo-piloto.
Durante o tratamento, relata o participante, sua insônia melhorou 90%. Além disso, a terapia familiar ajudou a melhorar o relacionamento com a esposa e, no trabalho, além de estar pisando um pouquinho no freio – a exemplo dos adeptos do slow food – ele também se contém e não “estoura” mais com as pessoas. “É preciso me policiar, porque tenho a tendência a fazer isso, mas meu comportamento já mudou um pouco e me sinto bem melhor”, revela.
“Fazíamos sessões em grupo com uma psicóloga e cada um explicava qual era o seu problema, como se sentia... Cada um falava de si e isso foi muito bom porque, ao mesmo tempo em que você pode se identificar com as outras pessoas, também percebe que tem coisas que pode dizer para ajudá-las e elas podem ajudar você”, conta outra participante.
D.G., que estava obesa e, quando começou o grupo já fazia tratamento com um endocrinologista, também sentiu que o acompanhamento psicológico a ajudou a deixar de reter coisas do passado que a atrapalhavam. “Eu guardava algumas mágoas que não conseguia falar nem para mim mesma, tinha péssima auto-estima e já estava ficando desesperada. Cheguei a me preparar para fazer a cirurgia de redução do estômago, mas não percebia que meu problema tinha origem emocional. No grupo, um dos objetivos era parar para pensar nas coisas que estavam acontecendo na nossa vida naquele momento e naquilo que já havíamos passado, como lidamos com nossos desequilíbrios emocionais. Percebí que foi o lado emocional que me levou a engordar”, diz a participante, que já emagreceu 20 quilos e hoje se sente mais estimulada para sair de casa com o filho, brincar com ele e se considera muito mais “serena e tranquila”.
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